sábado, 6 de julho de 2019

A pitonisa e a bruma


HILTON BESNOS


Carpe diem.

O homem, com a preocupação a roer-lhe, finalmente perguntou à Pitonisa. Contudo, o que escutou não o satisfez.Homem rude e trabalhador do campo, tinha dificuldades para traduzir significados ocultos sob o manto da linguagem. Menos ainda o que lhe dissera o Oráculo, através de Pítia, entre a fumaça que a punha em transe: carpe diem. E foi só o que disse. Ele, durante o caminho que o levaria até o Monte Parnaso, pensara cuidadosamente em suas perguntas e recebera uma expressão vaga, que não compreendera. Mas tinha sido atendido, havia uma resposta: carpe diem. A questão principal era desvendá-la. 

No retorno à sua casa, sentiu um peso enorme em sua alma, e um coração que se negava a aceitar a própria ignorância. Afinal, porque Apolo não poderia dizer de forma mais clara, quase esmiuçar o que transmitiu pela sua mensageira?

A conclusão o aplastrou como uma pata de cavalo sob a grama. 

Porque Apolo era um Deus, e ele um bronco. E assim, envolvido por uma nuvem que mesclava tristeza, decepção e amargura, seu pensamento vagou. Quantos mais sacrifícios teria de fazer para tornar à Delfos? Quanto tempo, até que houvesse uma nova oportunidade de consulta? E se recebesse então outra resposta que não entenderia?

A cidade sagrada já estava há pelo menos três horas de distância quando iniciou uma neblina  acompanhada de uma chuva fina, fraca e persistente. Mas, na sua obsessão, absorto que estava em si próprio, sequer notou a mudança do tempo. Ainda passaria um tempo para que, envolto em brumas, notasse um outro cavaleiro, que o acompanhava à distância. Com a neblina, parecia impossível identificar mais que um vulto. Automaticamente buscou a adaga que tanto o protegera até então.

Passara a inquietar-se; seu cavalo parecia ter perdido o seu controle.

O homem sentia-se subitamente exaurido, como se sua energia interna o abandonasse. Imprudente, cerrou os olhos, deixou-se vagar. A adaga que havia empunhado, caiu sob o terreno,  quando seus braços pareciam pesar muito mais do que tudo que sentira anteriormente. Sob a neblina, simplesmente perdera toda referência, enquanto seu corpo se deixava consumir pelo inevitável torpor.

Depois de um tempo irredutível em horas, em dias, em instantes, um vento gelado alcançou-o. O cavalo negro da morte o guiava até Caronte para a travessia ao encontro de Hades. Naquele instante último, subitamente entendeu o que dissera a Pitonisa: carpe diem, aproveite o dia. O seu último dia. 




terça-feira, 2 de julho de 2019

Vidas e mortes




A imagem pode conter: atividades ao ar livre


Andrew Wyeth 
(american watercolourist).
Willard's Coat, 1968 



HILTON BESNOS


Carpe diem.

Para nós, sapiens, o valor máximo é a autopreservação. Buscamos então, ante  qualquer hipótese, seguirmos vivendo, independentemente das tragédias pessoais, sociais, econômicas ou naturais que nos atinjam. Contudo, ao longo da vida, um número ainda pequeno de pessoas tem condições ou nível de informação para cuidar dessa casquinha milagrosa que denominamos "corpo". Somos eternamente finitos nessa configuração, mas eternamente infinitos no entendimento obscuro de nossos desmesurados egos.

Ao sentirmos a proximidade da morte, fazemos um mea culpa. De todo modo, dizem os que passaram pela experiência de quase-morte que tudo que fizemos nos vem à mente, como se o tempo congelasse. Quando nossas vidas correm risco efetivo, não nos importa nada do que seja material, e que tanto nos consome em tempo, trabalho ou fortuna adquirida. Não nos importa termos casas, apartamentos, automóveis, contas bancárias, família, compromissos, se nossos casamentos são reais ou aparentes, se detestamos, se amamos, se temos terrenos, se somos especuladores ou se nos dedicamos demais ao trabalho. Há um momento em que tudo isso se esvai, e então percebemos tardiamente que nada possui mais valor do que a vida.

No momento em que sentimos a experiência da morte, esquecemos nossas aparências e nosso consumismo, nossas misérias morais, ideológicas ou éticas. Animais que somos, nosso único foco é continuar por aqui. Contudo, há aqueles que, por serem altamente espiritualizados, sabem que para todos há o instante da passagem e na sua psiquê aceitam tal circunstância como algo natural e irremediável. Buscam algo a mais, que os gregos chamavam de "religare", o sentido mais alto de nossas vidas, quando abandonamos o corpo material, encarnado, para consagrarmos nossas almas para um bem maior, transcendente. 

Mas, o que éramos antes de nascermos? Uma expectativa, um niilismo infindável? Seria o nosso nascimento uma "morte" provinda de outro plano? A verdade é que não temos respostas objetivas para tais perguntas, apenas miragens. O que dizem as religiões? O que ensina a filosofia? O que pretende o materialismo? Há somente poucas verdades insofismáveis: nossas vidas não são infinitas e se encontram atreladas ao tempo e às degradações da nossa bio. Fora isso, a certeza de que todos os momentos em que deixamos de viver, no sentido social ou natural não retornarão.

Outrossim, as religiões, as seitas e as doutrinas interpretam distintamente o futuro post mortem. Logo, em razão de tal diversidade inexiste uma  resposta única. Embora o fato morte seja universal para qualquer ser vivo, as interpretações são múltiplas. Inferno, paraíso, purgatório, reencarnação são todas expressões ligadas ao sentimento religioso. Para os não-espiritualizados, o fim da vida coincide com o fim do corpo e da matéria.  

De todo, a necessidade de viver é imperiosa.

Sem vida não há virtudes, não há aprendizagem, não há bens de nenhuma ordem. Para a maioria das religiões, o que você faz hoje orienta suas possibilidades após a morte. Fim ou não, reencarnação ou não, deveríamos colocar a vida em seu papel central. E essa não prescinde o aprendizado comum, a generosidade, a coragem, o respeito ao próximo. A vida é uma sucessão temporal e histórica. Não somos apenas o horror, a chantagem, os infinitos jogos que fazemos e deixamos fazer ao longo de nossa passagem por aqui. Talvez pensemos nisso no momento em que se aproximar o momento de deixarmos nossa vida comum e anestesiada pela cobiça e pela inveja e pelo moralismo inócuo. Talvez no momento da morte deixemos nossas hipocrisias e nos vejamos tão só como personagens de uma infinita ficção.  É bem possível que apenas no momento da passagem, saibamos e aprendamos o que, naquele instante, nos é dado abandonar.






A pitonisa e a bruma

HILTON BESNOS Carpe diem. O homem, com a preocupação a roer-lhe, finalmente perguntou à Pitonisa. Contudo, o que escutou não o s...